Quando tiveres tempo!

Quando tiveres tempo!

Olá Avô, já chegaste? Neste momento estás provavelmente a disfrutar do teu filho que não vês há anos ou a dar um beijo bem carinhoso à Avó. Ou apenas agarrado ao conforto dos braços daqueles dois velhinhos que se emocionaram quando te viram chegar, orgulhosos do homem em que te tornaste ao longo de tantos e tantos anos. Terás com certeza muito para contar, bem daquela maneira como só tu o sabes fazer. A vida finalmente deu-te o descanso que merecias e agora são tempos de tranquilidade, tempos de saudade e recordação. Terás agora muito tempo e quem sabe algum para mim, deixa-me contar-te.

Comecei este blog para me divertir contando histórias da minha vida, relembrando lugares ou detalhando experiências. Hoje a minha vida tem uma história que se vai escrevendo, e tu foste um dos maiores pintores dessa história. Das pinceladas que davas na nossa vida lembro-me, por exemplo, que costumava admirar a qualidade e perfeição da tua assinatura e disse-te um dia que gostava de ter uma assinatura bonita como a tua. Tu sentaste comigo e disseste, é simples, podes começar por facer um “R” assim… Esse “R” que me ensinaste a fazer nesse dia ainda hoje o uso e está no topo deste blog. Lembras-te quando te falei que gostava de aprender a tocar guitarra portuguesa? E tu mandaste fazer uma guitarra de propósito para mim com todos os detalhes do fado de Coimbra pois sabias que era o fado que eu mais apreciava? Ainda hoje o fado e a guitarra portuguesa fazem parte das minhas paixões pois desde muito pequeno me habituei a ouvir-te tocar, deslizando os dedos pelas cordas e fazendo barulho com a respiração, na tua cadeira no canto da sala. Não cantavas muito mas quando eu era bem pequeno cantavamos junto aquele fado.

O meu menino é d’oiro
É d’oiro o meu menino
Hei-de levá-lo ao céu
Enquanto for pequenino

Enquanto for pequenino
Tão puro como o luar
Hei-de levá-lo ao céu
Hei-de ensiná-lo a cantar

Lembro-me também quando me ofereceste o violão do tio Toni, percebi a importância do gesto no teu olhar. Diz-lhe que não se preocupe, será sempre bem estimado. Quando era pequeno refugiava-me muitas vezes na garagem da tua casa, admirando as tuas canas de pesca estendidas na parede ou os garrafões de vinho empilhados que no início do outono te via tratar com tanto carinho. Aquele vinho que bebi tantos anos, aquele que fazias com dedicação nos teus terrenos, que era o propósito para reunir os teus filhos na colheita da uva e que achavas que era fermentado nos alguidares pelos mosquitos que rondavam a tona. Aliás, a natureza era uma das tuas paixões, plantavas oliveiras junto aos armazéns que construías e árvores de fruto nos teus campos, as primeiras frutas que comi tenho a certeza que nasceram do trabalho dos meus avós. As obras faziam parte da tua vida e eu lá brincava no meio, ora aprendendo ora passeando no teu dumper. Lembro-me de um dia ter sido picado por um enxame de abelhas numa grua desmontada, de ter corrido para ti e me teres esfregado uvas verdes nas picadas, são memórias que ficam… Ver-te pescar no paredão do porto da Póvoa de Varzim, ouvir as tuas histórias de palito na boca no fim do almoço no alpendre da cozinha, aquele palito que partias a meio e guardavas metade, são recordações que nem o tempo ou a distância me poderão apagar. Mas sabes o que mais admirava? A pessoa, a figura de alguém respeitado por todos e de respeito, que era um exemplo de homem e cavalheiro. Obrigado pela imagem que me deixaste na memória para seguir como exemplo.

Agora descansa, aproveita o teu tempo e colhe o fruto do carinho que por cá deixaste.

Ah, já por aí viste o meu pai? Dá-lhe um abraço. Não precisas de falar, ele vai perceber.


 

Adelino Lopes Pacheco
1931.02.05 – 2019.02.10